A verdade sobre a Cracolândia

Um dia desses eu e duas maravilhosas amigas, Lea e Liliam, tambem Psicólogas, resolvemos dar um passeio como turistas pelo centro de São Paulo, negligenciado não só pelas autoridades constituídas, tambem por grande parte dos moradores desta que é uma das maiores Metrópole do mundo, lançamos nossos olhares pelos contrastes entre edificações primitivas e contemporâneas, desde o Páteo do Colégio, onde começou esta história, edifícios de arquitetura sofisticada, como as que levam a assinatura de Oscar Niemeyer, entre Igrejas históricas, praças, obras de arte a céu aberto, edifícios comerciais, alguns templos da cultura como o Teatro Municipal, fomos nos encantando com cenas que para nós várias delas já nos eram familiares, porem pouco observadas em seus ricos detalhes, em uma doceria fundada em 1924, localizada na Praça da Sé, saboreamos um típico doce italiano.

       Entre gargalhadas, observações e reflexões, fomos observando a grande diversidade sócio-cultural, talvez não exista cidade do mundo tão rica neste aspecto como São Paulo que acolhe gente não só de todo Brasil, mas de todo planeta, pessoas de todas as raças e credos convivendo em harmonia, em frenética correria, cada um ocupando-se de sua sobrevivência.

       Neste “rolê” pelo centro de “Sampa” não fomos até a “Cracolândia”, porém não nos isentamos de nos angustiarmos profundamente com o grande número de moradores de rua e pequenas “Cracolândias” espalhadas por esta região da cidade e mesmo com nossas experiência como Psicólogos, acostumados a cuidar das doenças da “Alma”, não tivemos como nos indignar profundamente e nos sentirmos impotentes diante de tamanho flagelo humano, olhando para aquelas pessoas que são vistas como bichos, coisas desprezíveis ou Zumbis que são definidos como um cadáver reanimado que vive a perambular e agir de forma estranha, um vivo morto, sem personalidade e vontade própria, de fato é com isso que se parecem, mas são seres humanos.

       Estes “seres humanos” não estão nesta condição de usuários de drogas por uma mera escolha, existem infinitas variáveis que levam um indivíduo a esta condição e sofrem profundamente não só pelas condições degradantes que vivem, sem moradia, alimentação adequada, higiene e outras necessidades básicas, nas tambem pelos rótulos, desprezo, agressões físicas e morais, dentre outras formas de repulsa que lhes são impostas pela sociedade, pelo Poder Público e seus familiares.

       Por vezes a chamada “Cracolândia” vira notícia na Imprensa e recentemente uma nova e atabalhoada ação do Governo Municipal, com o objetivo de acabar com este ponto de consumo de drogas acabou em confusão, ferido e pânico na região central da cidade, esta fracassada tentativa tem o mesmo perfil das anteriores de outros governos, ou seja, falta de objetivo claro, falta de planejamento e organização com base em estudos profundos sobre esta dolorosa realidade, ou seja o que está posto como sempre é um olhar meramente político, numa concepção rasteira, pois toda política pautada nos seus verdadeiros princípios devem estar voltadas a resolução de fato dos problemas que afligem a sociedade.

       Qualquer ação só se tornará efetiva para resolver este grave problema que assola não só São Paulo, mas se espalhou por todo o mundo, até em pequenas cidades, se houver um planejamento sério com especialistas, sem viés político partidário, num efetivo combate aos traficantes e aos agentes públicos envolvidos em corrupção que se beneficiam desta tragédia, oferecer tratamento multidisciplinar adequado aos usuários de drogas.

       O aspecto que considero determinante para a solução deste problema infelizmente não tem sido objeto de atenção daqueles que discutem e atuam neste contexto, qual seja, a prevenção, que em um primeiro momento despenderia recursos financeiros e técnicos elevados, provavelmente este seja o maior entrave, pois nossos políticos são voltados para o imediatismo que lhes dão visibilidade já visando as eleições seguintes, quando na verdade a prevenção sempre terá um custo financeiro e social bem menor.

       Para se desenvolver uma política de prevenção faz-se necessário estudos profundos, com metodologia científica, para compreender o que leva uma pessoa ao uso de drogas, que fatores ambientais sociais, econômicos, culturais e familiares estão influenciando este “ser” a um vazio existencial, que necessita fazer uso de drogas para preencher este vazio e fugir de sua dolorosa realidade, viajando em fantasias, alucinações e delírios, muitas vezes sem volta.

       Uma vez com um panorama amplo sobre esta realidade torna-se possível elaborar um planejamento de fato consistente de médio e longo prazo, que envolva as Escolas, identificando alunos em condições psicológicas inadequadas, fazendo o devido encaminhamento para um profissional, envolvendo seus familiares, que via de regra são a fonte de angustia por diversos fatores, que merecem uma reflexão à parte sobre as relações familiares na contemporaneidade.

       Portanto só uma política de prevenção, com ênfase na Educação trará os resultados que todos nós, cidadãos de bem, preocupados com a vida do outro esperamos.

       A descriminalização da Maconha é outro engodo que só interessa aos usuários desta droga nociva ou a seguimentos que de alguma forma se beneficiarão disso, como a  geração de impostos e futuros tratamentos, ou não querem ter trabalho com programas de educação e prevenção com a seriedade que o tema exige, pois quem está de bem com a vida, psicologicamente bem estruturado, com boa capacidade de enfrentamento das adversidades e auto-estima adequada não busca e não necessita refugiar-se em drogas ou qualquer outro recurso que lhe trará mais sofrimento do que solução.

       Só um olhar desprovido de preconceito nos levará a uma cidade harmoniosa, sem julgar e condenar os que estão à margem da sociedade, mas compreender através de uma atitude de consciência que todo ser humano é único, cada um lida de maneira única com suas experiências, desta forma ao invés de lançar olhares de repulsa e ódio, vamos aprender a estender as mãos a quem necessita e deixarmos de terceirizar nossas responsabilidades, delegando a políticos medíocres, ou outros representantes como alguns ditos religiosos que se aproveitam dos flagelos humanos e de nossa passividade para atingirem seus objetivos egóicos.