Deficiência: castigo ou oportunidade?

            O sentimento de inadequação tem se tornado cada vez mais intenso na maioria das pessoas, devido a estes modelos de perfeição e felicidade inatingíveis. Assim no decorrer da vida, ao nos depararmos com qualquer limitação poderá nos levar a este sentimento de inadequação e nos causar sofrimento se não tivermos uma estrutura emocional sólida.

            Se nasci com alguma deficiência sensorial (visual ou auditiva), física ou intelectual ou se adquiri a deficiência ao longo da vida, como vou viver?

A visão, sem dúvidas, é uma das principais formas de percepção e interação com o mundo externo, pois nos permite infinitas possibilidades de interagir, como a locomoção, a contemplação de pessoas, coisas e paisagens. Orienta-nos na manipulação de objetos na prática do dia-a-dia, no lazer, no trabalho e tantas outras possibilidades. É indiscutível a importância da visão em nossa vida, porém na falta parcial ou total desta função surge a angustia , o medo e o desespero. O que fazer? Como viver?

            A audição é a principal ferramenta na comunicação com o outro, pois através dela que ouvimos o que o outro quer nos comunicar com todas as nuances e expressões do sentimento e é através da audição que aprendemos a fala. A deficiência física é limitante em várias possibilidades, desde a locomoção até as tarefas corriqueiras da vida diária e a deficiência intelectual via de regra subordina o individuo aos cuidados e desejos alheios com maior ou menor gravidade, dependendo do nível da deficiência e do ambiente que este indivíduo está inserido.

            Todo ser humano é dotado de plenos potenciais de desenvolvimento. Desta forma devemos desenvolver uma percepção consciente de nossa realidade que é composta de nossas potencialidades e limitações e que determinarão a finalidade de nossas vidas, assim se faz necessário que eu desenvolva minha identidade própria, fazendo minha diferenciação com o outro, reconhecendo os elementos que compõe minha vida.

            A principal forma de relacionamento é aquela que eu estabeleço comigo mesmo, é aquela que permanece e permite o desenvolvimento quando eu aceito e permito a transformação a cada necessidade de mudança, abrindo-me a novas possibilidades de existir.

            Então diante da falta da visão, da audição, da limitação física ou intelectual, podemos e temos todo potencial para encontrar uma forma pessoal e singular de viver, nos adequando emocionalmente a esta realidade e fazendo uso não só dos recursos interiores, mas também dos recursos externos, como o bom relacionamento com as outras pessoas, sem medo, sem melindres ou qualquer outra forma que nos diferencie do outro de forma negativa. Devemos ainda nos apropriar das mais diversas tecnologias desenvolvidas para facilitar e permitir que tenhamos acesso a vários elementos que nos possibilitam o acesso ao trabalho, ao estudo, ao lazer e as relações interpessoais de forma plena.

            Mesmo diante das grandes perdas devemos nos permitir a transformação, pois são as adversidades que nos impulsionam para o novo que garantirá nosso pleno desenvolvimento como seres humanos, permitindo que tenhamos uma relação mais autêntica conosco e com o mundo e que nos fortalecerá em nossas fragilidades e não permitirá nos perdermos na animosidade das outras pessoas.

            Sem a transformação e a consciência de nossos potenciais e limites, sem a consciência de que a vida é feita de ciclos, não teremos consciência de nós mesmos, porém, diante de nossa fragilidade e impotência para lidar com estas questões podemos e devemos recorrer à ajuda de um ente querido, um amigo, uma instituição ou até mesmo um profissional gabaritado para isto.

            Do ponto de vista espiritual devemos encarar uma deficiência não como castigo ou resgate pelos erros cometidos em vidas passadas, mas sim como oportunidade de trabalharmos nossas limitações e fragilidades que nos levaram a cometer ações inadequadas para nosso desenvolvimento. Outro aspecto que vale ressaltar é a ação do acaso, que é fundamental para nosso desenvolvimento, pois é através de novas experiências que exercemos o livre arbítrio e desenvolvemos novas possibilidades de crescimento espiritual, assim qualquer adversidade surge como fonte de transformação, quando compreendida e aceita, sem culpa nem culpados, para a partir disso mudarmos nossa conduta, dando um sentido mais profundo para nossa existência.

            Termino esta matéria com uma das mais belas e significativas frases dita por Antoine de Saint-Exupéry, descrita no livro “O Pequeno Príncipe” de sua autoria:

“Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”